A resposta passa por um dos acordos mais importantes da história: o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 entre Portugal e Espanha.
Um ano antes, em 1493, depois da viagem de Cristóvão Colombo, o papa Alexandre VI havia estabelecido uma linha imaginária que dividia as novas terras entre portugueses e espanhóis. Essa divisão, determinada pela chamada Bula Inter Coetera, favorecia amplamente a Espanha.
Portugal não aceitou.
O rei D. João II iniciou então uma negociação direta com os Reis Católicos da Espanha. O resultado foi extraordinário: a linha divisória, que estava aproximadamente 100 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, foi deslocada para 370 léguas a oeste.
Nascia assim o Tratado de Tordesilhas.

Essa mudança aparentemente simples teria consequências enormes. Graças à nova linha, uma parte significativa da América do Sul ficou dentro da área reservada a Portugal. Poucos anos depois, em 1500, Pedro Álvares Cabral chegou às terras que seriam chamadas de Brasil.
É justamente aí que surge uma das questões mais fascinantes dessa história.
Por que Portugal insistiu tanto em deslocar a linha para oeste?
Alguns historiadores defendem a hipótese de que os portugueses já possuíam informações secretas sobre a existência de terras naquela parte do Atlântico. Portugal tinha, naquele momento, alguns dos melhores navegadores, cartógrafos e cosmógrafos da Europa.
Entre eles estava Duarte Pacheco Pereira, profundo conhecedor de navegação, astronomia e geografia, que participou das negociações de Tordesilhas.

Segundo essa interpretação, Portugal não estaria negociando às cegas. Sabia, ou pelo menos suspeitava fortemente, que havia terras a oeste e queria garantir que elas ficassem dentro de sua área de domínio.
Essa hipótese ficou conhecida, em algumas obras históricas, como a ideia do “Brasil, segredo de Estado”.
Livro IMPERDÍVEL - Brasil, segredo de Estado de Sergio Corrêa da Costa
Mas teria Portugal pago à Espanha para que ela aceitasse essa mudança?
Até hoje, não existe prova documental de que Portugal tenha feito qualquer pagamento à Espanha pela assinatura do Tratado de Tordesilhas.
O grande trunfo português parece ter sido outro: conhecimento geográfico, informação privilegiada e habilidade diplomática.
Existe, entretanto, um episódio posterior que às vezes provoca confusão.
Em 1529, pelo Tratado de Saragoça, Portugal realmente concordou em pagar 350 mil ducados à Espanha para resolver uma disputa sobre as ilhas Molucas, na Ásia.
Portanto, são situações diferentes:
Tordesilhas, 1494: não há pagamento conhecido.
Saragoça, 1529: Portugal pagou 350 mil ducados.
O Tratado de Tordesilhas acabou tendo uma consequência que seus negociadores talvez nem pudessem imaginar em toda a sua dimensão.
Enquanto grande parte da América espanhola passou a falar espanhol, as terras que ficaram sob domínio português desenvolveram-se como uma imensa colônia portuguesa.
Séculos depois, desse território surgiria o Brasil.
Por isso, quando hoje perguntamos:
“Por que falamos português no Brasil?”
uma parte fundamental da resposta está em uma linha imaginária traçada sobre o mapa do mundo há mais de cinco séculos.
Uma linha chamada Tordesilhas.